MÚSICA E FUTEBOL

Sou jornalista apaixonado por música e futebol, brasileiro típico. Modestamente, pouco desafino com a bola e faço boa tabela com a viola. Os amigos, invejosos, dizem o contrário. Para eles, como músico e jogador, sou um bom jornalista. Arrisco, então, algumas palavras aqui sobre essas duas paixões brasileiras.

mauriciolouro@lancenet.com.br

Choro Maroto

postado por Maurício Louro

Porém é sempre bom ressaltar, diante de reações previsíveis, que nada tenho contra qualquer manifestação popular.

Após um sábado de longa jornada esportiva, encontrava-me numa mesa de bar no meio de uma conversa que pouco pude participar, uma vez que uma tevê exibia lá um vídeo antigo. Era o show 'desplugado' do Cidade Negra para a MTV... aquele antigo mesmo.

Convém observar que a minha cadeira estava de frente para o aparelho. Não havia volume de áudio, mas as cores e as mudanças de cena prendiam a minha atenção. De vez em quando entrava em algum assunto da mesa, mas me voltava sempre para a tela da tevê do bar. Essas coisas me dispersam a ponto de eu me irritar comigo mesmo. É um defeito meu.

Deveria fazer como o cara da mesa ao lado, sentado na mesma posição - ou seja, de frente para o vídeo.

Não sou objetivamente público do Cidade Negra, embora considere aquele DVD um bom trabalho de música pop.

Quando o show terminou cheguei a respirar aliviado. Pensei que poderia enfim participar da conversa na mesa, aproveitando assim, quem sabe, um pouco mais o meu fim de sábado. O dono do bar, no entanto, tratou de inserir um novo DVD com uma nova atração. Não resisti e fiquei olhando a abertura para tentar identificar de quem se tratava.

Era um show ao vivo, num teatro ou casa de espetáculo. Havia uma banda posicionada, com metais e alguma percussão. Aí entraram uns caras meio 'mauricinhos' de cordãozinho no pescoço e roupinhas produzidinhas com um sorriso que misturava benevolência e falsa surpresa. Um deles - que imaginei ser o líder do grupo - dava uns tapinas no peito, mais ou menos onde fica o coração, e apontava para o público (acho que ele queria dizer "vocês moram aqui, vocês moram aqui, vocês moram aqui").

Aí apareceu o crédito e fiquei sabendo que grupo era aquele. O nome tinha a ver com o ato de mostrar os dentes ao manifestar alguma alegria, porém, maliciosamente. "Bom...(pensei comigo mesmo), como não faz muito a minha cabeça acho que vou conseguir manter a concentração no papo com o pessoal da mesa".

A imagem em movimento na tevê me dispersa muito, conforme disse antes. Fiz um esforço considerável para manter a atenção na conversa. Quando meus olhos ameaçavam uma traição eu retomava a consciência e continuava atento ao assunto da mesa.

Foi assim até que o cara da mesa ao lado, sentado na mesma posição, percebeu o que passava na tevê. Ele não só percebeu como chamou o garçom e pediu para "dar um volume". O garçom, é claro, educadamente obedeceu.

Nada tenho contra qualquer manifestação popular, mas o meu sábado acabou ali.

NO TOM: Ibson

DESAFINADO: Ah, Botafogo

16/11/2008 23:23

 

Dupla de um

postado por Maurício Louro

Havia um semanário em Niterói chamado SeteDias. Trabalhei lá por algum tempo, quando ainda estudava Comunicação na UFF. Uma vez fui escalado para cobrir um esquema de segurança que a Polícia Militar desenvolveu. Não lembro exatamente o que era, mas isso não importa.

Naquele dia, após entrevistar o Coronel que era chefe do 12º Batalhão - ali na descida da Ponte, em Niterói -, encerramos as conversas tomando um café numa cantina local. Fiquei olhando o campo de futebol do Batalhão, com a graminha cortadinha... De repente aparece o Gerson, o Canhotinha de Ouro. Ele chegou rapidamente, trocou umas palavras com o Coronel, cumprimentou a mim e se mandou.

Fiquei sabendo que ele costumava aparecer por lá. Era rotina. E ainda jogava umas peladas naquele campinho dos PMs. Como quem não quer nada, arrisquei: "Tem uma vaguinha nesse futebol?" e o Coronel respondeu que sim. Era às terças, se não me engano.

Apareci lá no esquema, cedinho, com minha chuteira. Não jogava há um bom tempo, mas queria dividir o mesmo campo com o Gerson. E não é que o cara ficou no meu time?

Muito tempo parado, musculatura atrofiada... sabe como é. Na primeira arrancada o adutor da coxa esquerda reclamou, na segunda ele me avisou "pára seu louco" e, na terceira, partiu e me deixou na mão. Mas não deixei o campo.

Passei a jogar num lugar só, disfarçando. Só me adiantei um pouquinho que era para ficar próximo ao setor do Gerson. Eis que a bola me chega.

Consegui dar uma travada, ajeitar e tocar para o Canhota, que deu uma adiantada na bola e acertou um chute sem defesa para o goleiro adversário. Imediatamente saí de campo com a sensação do dever cumprido: não lembro se vencemos aquele jogo, tinha dado uma assistência para o Gerson... era o que importava.

NO TOM: Obina contra o Coxa

DESAFINADO: músculo adutor da coxa esquerda

23/10/2008 22:19

 

Como são as coisas

postado por Maurício Louro

Polivalente já foi palavra de uso comum e qualidade profissional obrigatória, até mesmo no futebol. Porém, o tempo passa e as coisas mudam. E radicalmente.
O mundo polivalente era de deixar louco, tamanho o volume de conhecimento a que se obrigava acumular para se ganhar mercado. Agora as coisas mudaram e a palavra-de-ordem é qualificação.
Não chega a ser o oposto, mas é bem diferente. No entanto, ainda assim é de deixar qualquer um louco.
Veja no futebol: o polivalente era aquele que atuava em todas, com desenvoltura. Esse tipo de jogador era peça fundamental em qualquer time. Geralmente o cara tinha pulmão de aço - como diziam -, e contava com a confiança total do treinador.
Hoje, jogador valorizado é aquele especialista, com as características específicas para se sair bem em determinado setor. Ele não joga parado, mas tem um perfil mais ofensivo ou mais defensivo e será utilizado pelo técnico dependendo da situação da partida.
Um bom ala-direito (ou esquerdo) tem que ir ao ataque, apoiar as jogadas ofensivas, mas não pode deixar a defesa desguarnecida. Os alas são utilizados em esquemas com três zagueiros, ou seja, têm lá uma cobertura, mas precisam se movimentar bastante e ajudar também na marcação. Assim, os alas apóiam a defesa, ajudam na movimentação no meio-de-campo e vão ao ataque. Mas jogam por um setor do campo.
O bom ala é um especialista, um técnico. É preciso visão e análise, além de um condicionamento físico adequado. Em resumo, se não tiver foco, vai perder espaço. É a qualificação.
Na música isso é bem claro. Sempre houve segmentação, mesmo no ramo popular. Por exemplo, há vários tipos de samba, certo? Um tipo de samba pode não agradar a um cara que diz curtir samba. Quem curte samba de raiz dificilmente vai ter estômago para um pagode-mauricinho.
Um cara que curte jazz muitas vezes só curte jazz. Música pra ele é jazz e ponto. Entende que jazz é a música de qualidade. É o foco, não queira discutir. Parece louco.
E tão louco assim é esse mundo web, tão recente e tão complexo. São tantas vertentes, linguagens e possibilidades que é difícil não perder o rumo. É preciso abrir mão de um monte de coisas, de conhecimentos que, em nome da qualificação, devem ser relevados.
Interessante como as coisas nos oferecem um universo instigante o qual não podemos desfrutar por completo. Acho que descobri o segredo das paixões.

No vídeo a essência do jazz com Duke Ellington. A música é Satin Doll



30/09/2008 22:41

 

Chutando cachorro vivo

postado por Maurício Louro

Então vou chutar o bicho antes que ele morra. Neste momento de euforia, após a vitória fabulosa sobre o Chile, continuo dizendo que não acredito nessa seleção aí sob o comando do Dunga. Na verdade, é no comando de Dunga como treinador que não aposto.
Deveria ter comentado isso logo após a vitória sobre a Nova Zelândia, em Pequim, mas estava vendo outras coisas e não o fiz. Vacilo meu.
Mas para você não achar que sou simplesmente um descrente, daqueles que só sabem criticar o trabalho alheio, observo aqui que acredito que um dia o Dunga possa se tornar um bom treinador. Por que não?
Só entendo que não é hora dele à frente da Seleção. Veja, como treinador, Jorginho, auxiliar-técnico do Dunga, tem mais experiência do que o chefe. E Jorginho não seria nem o mais indicado para ser auxiliar-técnico de uma Seleção Brasileira... não agora.
Dunga foi um bom comandante em campo, foi mesmo. Chegaram a inventar essa bobagem de "Era Dunga" em razão da forte personalidade que ele demonstrava quando jogador. Ser treinador, no entanto, é outra história. Você que está lendo isso, concorda comigo?
Faça uma lista com os cinco melhores treinadores brasileiros. Duvido que entre os cinco apareça o nome Dunga.

NO TOM: Engenhão recebe a Seleção

DESAFINADO: a disputa política no Botafogo... clube grande com cabeças pequenas

10/09/2008 13:03

 

Jonilson e Edmundo: duas lições

postado por Maurício Louro

Quando deixou o Botafogo, no início de 2006, Jonilson já havia definido sua transferência para o Cruzeiro. Pegou uma carona com o então técnico PC Gusmão e ambos foram para o futebol mineiro.
Logo que vestiu a camisa do Cruzeiro, terminada a briga com o Botafogo, Jonilson disse: 'Agora sim vou jogar num clube grande'. Uma frase infeliz, que despertou a ira do torcedor botafoguense. Como o mundo dá voltas.
A vitória do Cruzeiro sobre o Vasco não foi boa para o Botafogo, mas garanto que grande parcela da torcida alvinegra não tá nem aí. A expulsão de Jonilson foi capital na derrota vascaína, em dia que era para ser de festa em São Januário. E logo para o Cruzeiro... ah, Jonilson.
E o Edmundo... Ficou uma sensação estranha para quem assistia ao jogo. Logo que vestiu a camisa do goleiro Tiago, que havia sido expulso, Edmundo despertou a atenção do público. Foi um momento divertido da partida.
Porém, ao sair de campo, acho que muita gente se calou ao ver o Animal aos prantos. Edmundo não foi para o gol a fim de fazer cena. Ele estava lá dando seu sangue pelo clube que provou amar.
A cena foi emocionante, mas infelizmente não serve para tirar o Vasco da situação problemática.

NO TOM: os dez anos do título da Libertadores... parabéns Vasco

DESAFINADO: Jonilson

04/09/2008 22:49

 

Como será o passado?

postado por Maurício Louro

O tempo não pára. Música e futebol sempre fizeram parte da minha vida, desde moleque. No caso do futebol, era comum jogar um 'salãozinho', uma vez que não havia essa proliferação de grama sintética. As coisas mudaram muito, naturalmente.
No Rio, ali por Laranjeiras e Cosme Velho, onde mora boa parte da minha família, jogava na Casa do Minho, no Fluminense, no Aterro do Flamengo ou no playground do prédio de um primo. Em Niterói, onde fui criado, era mais fácil pintar uma quadra, um soçaite, ou mesmo um racha na Praia de Icaraí, em frente ao Central.
A relação com a música também mudou bastante. Na época as rádios mandavam no cenário, embora não contassem com uma estrutura comercial inteligente. Isso nos favorecia, pois o dinheiro não falava tão alto nas programações, como acontece hoje.
Aí era possível aparecer rádios como a Eldorado, já FM, no Rio, que tocava rock progressivo, algo impossível de se imaginar hoje. As músicas tinham 15 ou 20 minutos de duração, cada uma delas. Solos muito longos de guitarra, etc.
Ficávamos ligados nas lojas de discos, de olho nas novidades, no que viesse lá de fora. Comprávamos e ouvíamos Premiatta Forneria Marconi, ELP (Emerson Lake and Palmer), Gentle Giant, Jethro Tull e, numa outra linha, Rush, Queen, Led, Black Sabbath, etc.
No Maraca era diferente também. Não rolava essa história de Organizada, pelo menos não como hoje. E casa cheia era sinônimo de mais de cem mil pessoas.
Aliás, quem não estivesse no estádio só poderia ouvir o jogo nas rádios AM. Não havia tevê fechada, sites com transmissões em tempo real.
Era um período de informações filtradas, ou seja, nem tudo o que seria notícia chegava ao público. Não havia microcâmeras, câmeras escondidas.
Agora a notícia deixa de ser notícia para virar informação. Os acontecimentos estão pulverizados e os acessos liberados. Hoje sabe-se mais de futebol ou de música do que há dez anos.
Não bastasse isso, aquelas mesmas bandas estão aí, disponíveis em sites de busca ou de imagens. Os jogaços, os craques de outros tempos estão aí também. Tudo está a um clique. Sinceramente, acho isso tudo ótimo. É o meu trabalho, meu ganha-pão.

O que eu quero, a única coisa que quero nisso tudo, é que a saudade não morra.

O vídeo abaixo é do Premiatta... banda italiana dos tempos do Rock Progressivo... se quiser conferir...
inté

NO TOM: diretoria do Inter consegue manter Nilmar no clube... esse é craque demais

DESAFINADO: Atlético-MG no centenário



01/09/2008 13:18

 

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